(Dom Luiz Carlos Dias)
O mês de outubro, na tradição da Igreja, é dedicado de modo especial ao Santo Rosário, por ser o mês onde se comemora Nossa Senhora do Rosário. O rosário é a oração à Nossa Senhora por excelência, pois une contemplação e súplica, conduzindo os que o rezam ao coração do Evangelho. Essa devoção, profundamente enraizada na vida do povo de Deus, é não apenas uma prática piedosa, mas também uma verdadeira escola de oração e de vida cristã.
O Rosário, ao contrário do que pensam e apregoam muitos por aí, recordava São João Paulo II, é uma oração de caráter profundamente cristocêntrico: “O Rosário, embora caracterizado por sua fisionomia mariana, é uma oração de coração cristológico. Na sobriedade de seus elementos, concentra em si a profundidade de toda a mensagem evangélica” [1]. Assim, ao repetir com suavidade e amor cada Ave-Maria, o fiel não se perde em palavras, mas é conduzido, pelas santíssimas mãos de Maria, à contemplação dos mistérios do Senhor Jesus Cristo, ou seja, os mistérios da nossa própria Redenção: Sua milagrosa Encarnação, Sua dolorosa Paixão, Sua crudelíssima Morte e Sua gloriosa Ressurreição.
O Papa Urbano IV afirmou que “cada dia o povo cristão recebe novas graças por meio do Rosário”; Sixto IV proclamou que esta forma de oração “é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem, mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara”; Leão X disse-a “instituída contra os heresiarcas e contra o serpear das heresias”; e Júlio III chamou-lhe “ornamento da Igreja de Roma”. Igualmente Pio V, falando desta oração, disse que, “ao difundir-se ela, os fiéis, inflamados por aquelas meditações e afervorados por aquelas preces, começaram de repente a transformar-se com outros homens; as trevas das heresias começaram dissipar-se, e mais clara começou a manifestar-se a luz da fé católica”. Finalmente, Gregório XIII declarou que “o Rosário foi instituído por S. Domingos para aplacar a ira de Deus e para obter a intercessão da bem-aventurada Virgem” [2].
A tradição da Igreja, ainda, apresentou o Sacratíssimo Rosário como “caminho de santificação” e “oração da família”. Deste modo, sublinha o valor da oração diante das dificuldades. Ao mundo moderno, recordou-nos São João Paulo II, que esta oração aparentemente simples e repetitiva tem força de transformar a vida pessoal e, consequentemente, a comunitária: “O Rosário acompanha-me nos momentos da alegria e nas provações. A ele confiei tantas preocupações e nele sempre encontrei conforto” [3].
Mas, sendo o Sacratíssimo Rosário uma oração contemplativa e, indiscutivelmente, cristológica, é uma pedagogia diuturna, uma escola, da profundidade do amor. Olhar para Cristo com os olhos de sua santíssima Mãe é, consequentemente, experimentar a profundidade de um amor humano sem manchas ao mais divino mistério. Sendo assim, temos diante de nós, neste mês e em todos os dias, com pediu Nossa Senhora em Fátima, uma pedagogia de fé. O Rosário ensina a unir a mente e o coração na meditação dos mistérios da vida de Cristo e da nossa Redenção; o Rosário forma o fiel para a oração perseverante, humilde e confiante. O Rosário alimenta a espiritualidade familiar, reunindo gerações em torno da oração comum. O Rosário sustenta a esperança do povo de Deus diante dos desafios [4].
Assim, celebrar outubro como mês do Sacratíssimo Rosário é renovar o apelo da Igreja a cada fiel de rezar o Rosário em família, nas comunidades, nas paróquias e nos grupos pastorais, como exercício de fé viva e oração confiada à Beatíssima Virgem Maria. Não se trata apenas de manter uma devoção tradicional, mas de compreender que o Rosário é uma resposta simples e poderosa diante da pressa, das incertezas e das crises do nosso tempo.
Desejamos, assim, que este mês seja oportunidade para redescobrir na oração do Rosário um caminho de santidade, um ato de esperança e uma arma espiritual contra o mal, conforme tantas vezes recordou o magistério da Igreja.
[1] JOÃO PAULO II. Rosarium Virginis Mariae, n. 1.
[2] Cf. LEÃO XIII. Supremi Apostolatus Officio, n. 9.
[3] JOÃO PAULO II. Rosarium Virginis Mariae, n. 2.
[4] A “Batalha do Lepanto” foi vencida por este sacramental maravilhoso: o Rosário.