Sidney Prado ago 8, 2023

A ignorância natural diante da inteligência artificial

A ignorância natural diante da inteligência artificial
Dom Rogério Augusto das Neves

Uma das mais conhecidas frases atribuídas ao filósofo grego Sócrates diz: “Só sei que nada sei”. Essa teria sido uma frase em resposta à mensagem do oráculo de Apolo, dada a seu amigo Querofonte, em Delfos, que afirmou que ele era o mais sábio entre os homens gregos. Questionando essa condição de mais sábio, quando na sociedade grega havia diversas autoridades reconhecidas por seus saberes, devotou sua vida a investigar o que era ser sábio e o qual era o verdadeiro conhecimento.

Sócrates demonstrou que o que era compreendido como sabedoria não passava de meras opiniões sustentadas pelo senso comum. Também demonstrou que os que eram considerados sábios, na verdade, apenas reproduziam o que tinham aprendido dos outros. Como estes, baseando-se nesse tipo de saber, consideravam-se sábios, Sócrates descobriu que sua sabedoria consistia em não se considerar sábio, pelo menos, não segundo aqueles supostos sábios que apenas repetiam o que tinham ouvido dos outros. De certa forma, ele propunha que o começo da sabedoria consistia em reconhecer a própria ignorância. Até nos faz lembrar o que é dito no livro dos Provérbios: “Começo da Sabedoria é o temor do Senhor, e o conhecimento do Santo é a prudência” (Pr 9,10).

Assim, já na Grécia antiga, Sócrates questionava a ideia de que a inteligência ou a sabedoria consistisse no acúmulo de dados, o que faz com que as pessoas se tornem repetidoras de informações, o que nos parece totalmente desligado da vida humana. O que se pode dizer, então, quando essas informações são abundantemente lançadas em uma memória capaz de armazená-las, acessá-las com uma rapidez incrível e processá-las a modo de uma inteligência humana? Para a maioria das pessoas, isso parece dizer que se criou uma inteligência artificial, mais potente do que o raciocínio humano, demonstrada pela rapidez e eficiência de suas respostas e com os traços de uma criatividade imediata e controlada. Em poucas palavras, uma genialidade que não precisa nem de inspiração, nem de transpiração!

Se nossa noção de sabedoria e de inteligência for essa, então, como teria dito Arquimedes, outro sábio grego: “Eureka!” (Encontrei). Mas, também se poderia perguntar: “Encontrei o quê?”. É verdade que os possíveis benefícios de tal tecnologia são inquestionáveis. Não somos capazes nem de descrever as possibilidades. Mas também é verdade que nenhuma tecnologia ou conhecimento, por mais maravilhoso que fosse, produziu, até hoje, a bondade capaz de realmente melhorar a vida humana.

Na verdade, nossos inventos e descobertas, um por um, sempre se demonstraram mais utilizáveis para o domínio e para os interesses de poder e de controle do que para o bem. Há sempre um ser humano, poderoso e insaciável, a utilizar tudo isso para a dominação e não para promover o bem de todos. Infelizmente, fazemos mais progresso na guerra do que na paz. Não precisava ser assim, mas, dramaticamente, é assim.

Não precisamos fazer previsões futuras. O presente já o demonstra: a inteligência artificial já está em uso, “a todo vapor”, atendendo a interesses. Diante desse quadro, a Palavra de Deus também fala de conhecimento e de ignorância, também com certo acento maior na carência do que na abundância. Foi assim que Jesus disse certa vez: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11,25). Em certo sentido, ainda deveríamos ter em conta as lições de Sócrates, de talvez continuarmos buscando a ignorância natural, para dela podermos dar os primeiros passos necessários para adquirir uma verdadeira “Inteligência Natural”, que também poderia se chamar Sabedoria.

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