A IDADE DA SABEDORIA

Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo de Belém do Pará (PA) Foto: Reiza Lopes “Queridos avôs, queridas avós! ‘Eu estou com

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará (PA)

Foto: Reiza Lopes

“Queridos avôs, queridas avós! ‘Eu estou com você todos os dias’ (Cf. Mt 28, 20) é a promessa que o Senhor fez aos discípulos antes de subir ao Céu; e hoje repete-a também aos avôs e avós: ‘Eu estou com você todos os dias’, São também as palavras que eu, Bispo de Roma e idoso como você, gostaria de dirigir-lhe. Toda a Igreja está solidária conosco, preocupa-se conosco, ela nos ama e não quer deixar ninguém abandonado”. Assim começa a mensagem do Papa Francisco, para o primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, a ser celebrado cada ano na proximidade da Festa de Sant’Ana e São Joaquim, pais de Nossa Senhora e avós de Jesus. E ele se inclui no grupo dos idosos, ensinando com seu modo de ser e viver a beleza da idade em que se encontra. A extraordinária sensibilidade do Santo Padre envolve com zelo pastoral todas as situações humanas, e esta é a hora daqueles que chegaram à “Idade da Sabedoria”.

Deus não despreza qualquer etapa da vida das pessoas, e a cada idade correspondem tarefas e missões. Todos nós vivemos situações diferentes segundo cada uma delas. De um lado, desejamos que todos tenham vida longa, e a Bíblia parece até exagerar quando expressa a bênção de Deus referindo-se ao mundo novo prometido por Deus: “Não haverá ali crianças que só vivam alguns dias, nem adultos que não completem os seus dias, pois será ainda jovem quem morrer com cem anos” (Is 65, 20). Assim a longevidade é elogiada, e sabemos o quanto a expectativa de vida aumenta em nossos dias! O que falta no mundo é o cuidado com a vida!

Podemos acompanhar alguns passos da mensagem enviada pelo Papa à Igreja e ao mundo. Constata Papa Francisco que a mensagem aos idosos e aos avós chega num tempo difícil: a pandemia foi uma tempestade inesperada e furiosa, uma dura provação que se abateu sobre a vida de cada um, mas, aos idosos reservou um tratamento especial, um tratamento mais duro.

Com simplicidade, refere-se às noites de vigília experimentadas pelos idosos. Conta que, segundo uma tradição, também São Joaquim, pai da Virgem Maria e avô de Jesus, foi afastado da sua comunidade, porque não tinha filhos; a sua vida – como a de Ana, sua esposa – era considerada inútil. Mas o Senhor enviou-lhe um anjo para consolá-lo. Estava ele, triste, fora das portas da cidade, quando lhe apareceu um Enviado do Senhor e lhe disse: “Joaquim, Joaquim! O Senhor atendeu a sua oração insistente”. Diz o Papa que o pintor Giotto dá a impressão, num afresco famoso, de colocar a cena de noite, uma daquelas inúmeras noites de insônia a que se habituaram os idosos, povoadas por lembranças, inquietações e anseios.

Com o Papa, podemos recordar uma situação muito comum entre os idosos, a solidão. E trago neste período na lembrança e na oração muitas pessoas solitárias, sem contato com os outros e com o mundo, em tempo de pandemia. “O Senhor continua a enviar anjos para consolar a solidão repetindo-nos: ‘Eu estou com você todos os dias’. Ele o diz a você, e a mim, a todos os idosos e aos solitários. Depois dum longo isolamento e com uma retomada ainda lenta da vida social: oxalá especialmente quem dentre vocês está mais sozinho, receba a visita de um anjo! Este anjo, algumas vezes, terá o rosto dos netos; outras vezes, dos familiares, dos amigos de longa data ou conhecidos precisamente neste momento difícil. Aprendemos a entender como são importantes, para cada um de nós, os abraços e as visitas, e muito entristece o fato de as mesmas não serem ainda possíveis em alguns lugares”.

E como enfrentar os momentos difíceis? Papa Francisco sugere: “Cada dia, leiamos uma página do Evangelho, rezemos com os Salmos, leiamos os Profetas! Ficaremos comovidos com a fidelidade do Senhor. A Sagrada Escritura nos ajudará também a entender aquilo que o Senhor nos pede hoje na vida. Ele manda os operários para a sua vinha a todas as horas do dia (Cf. Mt 20, 1-16), em cada estação da vida. Eu mesmo posso dar testemunho de que recebi a chamada para me tornar Bispo de Roma quando tinha chegado, por assim dizer, à idade da aposentadoria e imaginava que já não podia fazer muito de novo. O Senhor é eterno e nunca se aposenta! Nunca!” Sabedoria pura, de homem curtido pela vida e consciente da responsabilidade recebida da Divina Providência!

Daí para a frente, a mensagem do Papa lança todos os idosos à Missão! Afinal, sua insistência em que sejamos discípulos missionários é para todos, inclusive para pessoas que, como eu, já entraram no que chamam de terceira ou melhor idade! Acolhamos o que diz o Papa, tomando posse de suas recomendações: “Nossa vocação é salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Não se esqueçam disto”.

E vai além: “Aposentadoria? Não existe uma idade para aposentar-se da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições aos netos e aos mais novos. É preciso pôr-se a caminho e, sobretudo, sair de si mesmo para empreender algo de novo. “Como pode um homem nascer, sendo velho?” (Jo 3, 4). Isso é possível abrindo o próprio coração à obra do Espírito Santo, que sopra onde quer. Com a liberdade que tem, o Espírito Santo se move por toda a parte e faz aquilo que quer”.

Continua o Papa: “Da crise que o mundo atravessa, não sairemos iguais: sairemos melhores ou piores. Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver e descubramos, enfim, que precisamos e somos devedores uns dos outros, para que a humanidade renasça, todos irmãos!

Enfim, o Santo Padre recomenda três pilares para a nova construção do mundo:

Os sonhos: “Os vossos anciãos terão sonhos e os jovens terão visões” (Joel 3, 1). O futuro do mundo está nesta aliança entre os jovens e os idosos. Quem, senão os jovens, pode agarrar os sonhos dos idosos e levá-los adiante? Para isso, é necessário continuar a sonhar: nos nossos sonhos de justiça, de paz, de solidariedade reside a possibilidade de os nossos jovens terem novas visões e, juntos, construirmos o futuro”. Para o Papa, é preciso testemunhar a possibilidade de se sair renovado duma experiência dolorosa.

Depois, a Memória. “Recordar é uma missão verdadeira e própria do idoso: conservar na memória e levar a memória aos outros. Para mim, a memória é viver… Esta memória pode ajudar a construir um mundo mais humano, mais acolhedor. Mas, sem a memória, não se pode construir; sem alicerces, nunca se constrói uma casa. E os alicerces da vida estão na memória”.

Oração. “Como disse Papa Bento (um idoso santo, que continua a rezar e trabalhar pela Igreja), ‘a oração dos idosos pode proteger o mundo, ajudando-o talvez de modo mais incisivo do que a fadiga de tantos’. A oração é um recurso preciosíssimo: é um pulmão de que não se podem privar a Igreja e sobretudo neste tempo tão difícil para a humanidade em que estamos – todos na mesma barca – a atravessar o mar tempestuoso da pandemia, a intercessão dos avós e idosos pelo mundo e pela Igreja não é vã, mas indica a todos a serena confiança de um porto seguro.

Ao final da mensagem, Papa Francisco recorda Charles de Foucauld, que está para ser canonizado, cuja história mostra “como é possível, mesmo na solidão do próprio deserto, interceder pelos pobres do mundo inteiro e tornar-se verdadeiramente um irmão e uma irmã universal. Cada um de nós alargue o próprio coração e o torne sensível aos sofrimentos dos últimos e capaz de interceder por eles. Oxalá cada um de nós aprenda a repetir a todos, e em particular aos mais jovens, estas palavras de consolação que ouvimos hoje dirigidas a nós: ‘Eu estou com você todos os dias’. Avante e coragem! Que o Senhor os abençoe” (Papa Francisco).

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