Estamos no Ano Franciscano, louvamos a Deus pelos 800 anos do trânsito de São Francisco para a casa eterna do Pai. O grande santo de Assis não quis criar uma nova Igreja, mas repará-la, revivendo sua essência evangélica com sua vida despojada e espírito de serviço fraterno para com todos, especialmente para com os pobres. O novo espírito trazido à Igreja pelo poverello de Assis, ajudou a sustentar a barca de Pedro em tempos de crises em seu interior, sob o pontificado de Papa Inocêncio III.
Gostaria de ressaltar o amor de São Francisco de Assis pelos padres e sua compreensão profunda do sacerdócio. Ele dizia ver nos padres o próprio Filho de Deus, o seu olhar não levava em conta os seus eventuais pecados, não os julgava. Era um olhar de quem tem o coração purificado pela fé e pelo amor misericordioso de Deus.
Por vezes, a percepção deste imenso dom de Deus é desafiadora até mesmo para nós sacerdotes, sobretudo quando se sente mais o peso do sacerdócio e seus trabalhos do que alegrias – pela responsabilidade, cobranças, mudanças sociais e religiosas, pelo sentimento de impotência, etc.
São Francisco de Assis compreendia que o sacerdócio é dom sublime, fruto do amor de Deus ao seu povo. Ele valorizava a missão dos padres, reconhecendo neles instrumentos da misericórdia divina, chamados a servir com humildade e dedicação, independentemente das fragilidades humanas. O seu exemplo convida-nos hoje a olhar para os sacerdotes com respeito e gratidão, vendo neles a presença viva de Cristo na Igreja.
Para purificar também os vossos olhares quanto ao sacerdócio, vos exorto a reviverem o momento alegre da vossa ordenação presbiteral, para reavivarem o dom precioso de serem sacerdotes do Senhor para sempre. De maneira especial, saboreiem com júbilo o mistério divino que envolve para sempre o vosso ser e a vossa história, configurando-os estreitamente ao Filho de Deus.
Não se esqueçam dessa experiência profunda de serem amados gratuitamente por Deus. Pela ordenação presbiteral Deus quis multiplicar o seu Filho Unigênito no meio do seu povo, para salvá-lo. E você padre, é um deles, para ajudar a sustentar a esperança nesse mundo marcado pelo conflito e guerras.
Por ser profundamente configurado ao Filho de Deus, o sacerdote pode com propriedade dizer na celebração eucarística: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós (Cf. Mt 26,26) frase eloquente para exprimir o vínculo ontológico e indelével existente entre o padre e Cristo Sacerdote. Entretanto, essa mesma frase também é indicativa de um outro vínculo vital para a vida presbiteral, o vínculo entre o mistério pascal de Jesus Cristo e vós. O mistério pascal encontra-se no centro da mensagem cristã proclamada pela Igreja, desde os Apóstolos.
Às portas da Páscoa, é oportuno recordar que a disposição de entregar a vida, é condição para a missão ministerial resultar frutífera e alegre, assim como para configurar o seu pastoreio com o do próprio Senhor, sem reservas ou ambições. Para esse propósito, o ícone escolhido para a celebração de hoje, é ilustrativo do amor do pastor pelas ovelhas do seu redil, ou da sua paróquia. E como o pastoreio implica dificuldades e desafios, saiba buscar forças e iluminação no Mistério Pascal do Senhor para não ficar na aridez ou carência de amor e esperança. Quem bebe desta fonte terá a sede saciada (Jo 4, 10-14).
Esta celebração é denominada – Missa do Crisma, pois nela a Igreja prepara os Santos Óleos para a missão de pastorear o Povo de Deus em momentos decisivos da vida de seus membros. Esses óleos testemunham que o Espírito Santo que estava sobre Jesus Cristo, como ouvimos no Evangelho hoje, foi doado por Ele por Ele à Igreja, para ela exercer sua missão de constituir novos Cristos no mundo e cuidar deles no discipulado.
O óleo dos catecúmenos é expressão de Deus em busca do ser humano, visitando-o e tocando para suscitar nele o desejo por Deus e abertura para acolhê-lo na fé. Em Cristo, Deus propõe ao ser humano, renascer para a vida nova enquanto filho ou filha no seu Filho Primogênito e trilhar pelo caminho da justiça do Reino, reunido em comunidade eclesial, o que já é inscrito e desejado por todo ser humano. Esse Óleo lembra o mandato missionário de anunciar o Evangelho a toda criatura.
O Óleo dos Enfermos lembra que a Igreja recebeu a missão de curar as feridas humanas, como ouvimos na leitura de Isaías e no Evangelho. Temos o exemplo de Jesus tocando e curando doentes e libertando pessoas de maus espíritos. A cura integral do ser humano, evidentemente, é um processo só finalizado diante de Cristo ressuscitado. Empenhemo-nos em aproximar as pessoas do Salvador, lembrando que missão da Igreja se liga estreitamente aos pobres e sofredores.
O Óleo do Crisma é o óleo das unções, com o poder de configurar pessoas a Cristo. Na Confirmação, expressa o final da iniciação cristã e o início do apostolado; nas Unções do rito das Ordens Sacras – configura o ungido a Cristo Sacerdote. É o óleo indicativo do sacerdócio comum e ministerial do Povo de Deus, como se lê no livro do Êxodo – Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19,6), dentre o povo, alguns recebem um chamado como expressou Isaías: “Vós sereis sacerdotes do Senhor” (Is 61, 6). Este Óleo caríssimos presbíteros, lembra a importância do vosso ministério para a vida e missão do Povo santo de Deus.
Aos consagrados e leigos e leigas de nossa Igreja Particular, vos suplico que orem incessantemente pelos nossos sacerdotes, pelos nossos Diáconos e por mim vosso pequeno servo, para que nosso ministério seja realmente fonte de bênçãos e graças para esta Igreja Particular. Rezem também pela perseverança dos seminaristas e por vocações.
E confiemo-nos aos cuidados da Virgem Maria, Mãe e intercessora da Igreja, a São José, guardião do Redentor e Patrono da Igreja, além de São Carlos Borromeu, nosso Padroeiro e inspirador para o cuidado de nosso povo.
Dom Luiz Carlos Dias
Bispo Diocesano
