HOMILIA- V DOMINGO DO TEMPO COMUM
Na primeira leitura (Is 6, 1-8) estamos diante do relato da vocação do profeta Isaías. O profeta irá contar uma experiência transcendental que fez, e por isto usa símbolos para tentar descrever aquilo que as palavras não conseguem expressar de modo claro. Toda experiência interior do sobrenatural é algo muito profundo e com certeza difícil de se explicar com palavras humanas. Assim também acontece em escala menor quando tentamos descrever nossos sentimentos ou o amor que vai dentro de nosso coração. Deste modo Isaías inicia usando uma “teofania”, isto é, uma manifestação de Deus. Nas teofanias encontramos sempre elementos externos e simbólicos, que visam comunicar uma mensagem, assim encontramos, por exemplo, Moisés quando Javé se revela na sarça ardente (Ex 3) ou na realização da Aliança do Sinai (Ex 19, 7- 25).
Isaías experimenta a grandeza infinita de Deus e a descreve criando uma sensação de plenitude. O Senhor está sentado no trono em lugar muito alto como um rei e cercado de sua corte, seu manto ou numa melhor tradução “a orla de seu manto” e a fumaça enchiam o Templo, e a glória de Deus se estendia por toda a terra. O Templo está repleto da glória de Deus, mas Deus não está circunscrito ao Templo por isto a sua glória transborda por toda a terra. Podemos afirmar que a própria terra é o Templo gigantesco de Deus! Assim o profeta nos narra em imagens simbólicas a onipotência divina e sua infinita santidade.
Em seguida Isaías experimenta sua condição de criatura humana frágil e pecadora, sente-se muito pequeno diante de Deus. Esta experiência da fragilidade humana é própria daqueles que se aproximam da santidade divina, eles sempre se percebem pecadores. Segue então o rito de purificação do pecado realizado pelo anjo com uma brasa retirada do altar, quando esta tocou a boca do profeta seu pecado foi perdoado. É interessante notar que a boca é justamente o órgão necessário para a pregação profética. Assim purificado Isaías já pode ser enviado para falar em nome de Deus. No final do texto encontramos a pergunta de Deus: “Quem enviarei?” E logo depois a resposta de total disponibilidade de Isaías: “Aqui estou. Envia-me”.
Todos nós também como Isaías somos chamados por Deus e enviados em missão. Fazemos sem duvida a experiência da grandeza de Deus e de seu infinito amor, e também nos sentimos pequenos, limitados e pecadores. Vamos também sendo purificados por Deus e as coisas vão mudando de modo lento e gradual em nossas vidas. O contato que temos com a Palavra de Deus vai penetrando fundo, nos iluminando, mas também nos apontando nossas infidelidade e incoerências. Sem duvida como dirá mais tarde Paulo, carregamos um grande tesouro em vasos de argila (2 Cor 4, 7). Percebemos também que a própria Palavra de Deus que meditamos e pregamos, vai aos poucos nos transformando.
Isaías mesmo sentindo-se pequeno diante da tarefa da o seu “sim”, e nos ensina que nossas fraquezas e limitações não podem servir de desculpa para assumirmos nossa vocação e os serviços que nos são confiados por nossa comunidade.
Será que de fato estamos disponíveis ao convite de Deus? Por que muitas vezes dizemos não, quando somos convidados para algum ministério ou missão em favor de nossos irmãos?
Na segunda leitura (1 Cor 15, 1-11) Paulo aprofunda o tema da ressurreição. Os corintios tinham recebido bem a mensagem cristã como um caminho de sabedoria para viver melhor, mas tinham muita dificuldade em aceitar a ressurreição dos mortos. Deste modo o apostolo começa seu ensinamento lembrando do Evangelho, ou boa notícia, que ele havia pregado e que o povo tinha recebido com entusiasmo. Paulo pede que a comunidade seja mesmo fiel, viva o Evangelho para ser salva e não ter abraçado em vão a caminhada da fé. Em seguida vem a formula da chamada “tradição”: o apóstolo diz ter transmitido o que ele mesmo recebeu! A tradição oral é bem isto mesmo: transmitir algo que se recebeu e ser fiel nesta transmissão.
Paulo então apresenta o “kerigma”, isto é, o núcleo fundamental da fé cristã: “que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze”. Estamos agora diante da fundamental profissão de fé que nos identifica como seguidores de Jesus Cristo. Encontramos aqui dois fatos correlatos, morte e ressurreição segundo as Escrituras. Quando se diz “segundo as Escrituras” se está querendo afirmar um dado de fé, uma revelação de Deus: a morte de Cristo é redentora, por ela os pecados foram perdoados e o homem reconciliado, e a ressurreição é a vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte, e confirma a aceitação do Pai do sacrifício redentor realizado pelo Filho!(1 Cor 15, 17-18) Ainda se fala da “sepultura” como confirmação da morte, e das aparições de Jesus como comprovação de sua vida plena!
Paulo depois acrescenta uma lista de aparições do ressuscitado, mas é curioso perceber que no “kerigma” Pedro foi o primeiro a fazer esta experiência, aliás, sempre Pedro no Novo Testamento é o primeiro a agir, a falar em nome dos apóstolos e a intervir, o que indica claramente sua função de primazia no colégio apostólico designado pelo nome de “os Doze”. Os apóstolos sempre foram considerados como as testemunhas oculares dos fatos, conviveram com o Mestre, foram por Ele instruídos, testemunharam sua morte e ressurreição e foram os primeiros missionários e transmissores do Evangelho.
Termina Paulo nosso texto falando sobre si mesmo e sua vocação, lembra a experiência que teve com Jesus ressuscitado (At 9, 1 ss) e sente-se também frágil, pecador e pequeno diante de sua missão, diz claramente ser um abortivo, o menor dos apóstolos e nem mesmo merecer este nome. Aqui estamos mais uma vez diante da finitude da criatura frente a grandeza infinita do criador. Lembra ainda o apóstolo seu pecado quando perseguia, prendia e maltratava os cristãos, mas tem muita confiança no perdão e na graça de Deus. Paulo sabe por experiência pessoal que o dom de Deus é pura gratuidade, e que o homem tem que aceitar este dom e desenvolve-lo, sendo assim colaborador de Deus, neste sentido afirma que a graça de Deus nele não foi estéril, mas produziu muitos frutos. De fato Paulo foi um apóstolo incansável, fundou diversas comunidades em suas longas viagens, sofreu muito e deu sua vida por Cristo!
Continuando o texto Paulo irá depois explicar a ressurreição das pessoas, justamente fundamentado na ressurreição de Cristo como prímicia de uma abundante colheita de vida!
Como o apóstolo Paulo, também experimentamos nossa fraqueza e pecado, será que isto nos deveria impedir de assumirmos nossa vocação e missão? Muitas vezes parece que a graça de Deus não dá fruto em nossas vidas, porque será que isto ocorre?
De fato cremos no núcleo fundamental de nossa fé? Olhamos para Jesus na cruz como nosso redentor e vitorioso sobre a morte? Apostamos mesmo na vitória do bem e da vida em nosso agir na sociedade?
No evangelho (Lc 5, 1-11) estamos diante de Jesus que prega a Palavra e depois chama os primeiros apóstolos.
Na primeira parte de nosso texto Jesus está pregando nas margens do mar da Galiléia, agora ele não mais ensina na Sinagoga como antes. Também o anúncio da palavra não ocorre mais nem no sábado e nem dentro do contexto litúrgico. A multidão era grande e o Senhor sobe a barca de Pedro para melhor se comunicar com o povo. Aqui já encontramos fortes lições para nossa vida. A Palavra de Deus ilumina, fortalece e orienta toda a vida e todas as atividades do homem; e deve ser proclamada não apenas nos espaços sagrados, mas em toda à parte. O esforço de ir ao encontro dos homens onde eles estão, e ali levar o Evangelho é um imperativo para todo o discípulo de Jesus. Hoje poderíamos nos perguntar: onde Jesus pregaria?
Também Jesus subindo a barca para ter uma melhor comunicação nos deveria ensinar a necessidade de uma melhor transmissão da Palavra de Deus. Muitas vezes podemos perceber que esta Palavra tão rica é comunicada de forma fraca e deficiente. É claro que nesta busca de uma melhor comunicação precisamos estar atentos a inculturação: o Evangelho que dialoga com todas as culturas e as utiliza para que haja melhor compreensão por parte do povo.
Depois de ensinar Jesus manda que Pedro avance com sua barca para as águas mais profundas e que pesque. E temos a pesca milagrosa que ocorre, esta não é nem iniciativa de Pedro, nem de sua habilidade de pescador, mas fruto da Palavra de Jesus! Pedro sem dúvida aparece como aquele que comanda a barca, mas apenas executa a ordem de Jesus, levando sua barca ao lugar por ele indicado.
É certo que a ordem de Cristo para pescar em pleno dia não era algo muito lógico humanamente falando, visto não ser a hora mais apropriada para isto. Além disso, Pedro já havia trabalhado a noite toda sem nenhum resultado, devia estar bem cansado e desanimado. Mas Pedro proclama sua fé na Palavra de Jesus, lança as redes novamente em obediência a palavra do Mestre. Pedro então deixando de lado o bom senso de sua experiência profissional, confia e obedece e aí vemos o resultado de uma pesca abundante. Nós também como discípulos devemos aprender com Pedro a ouvir melhor a Palavra de Jesus, seguir na direção apontada por Ele e obedece-lo. Todos precisamos confiar mais na Palavra de Jesus, e mesmo que certas situações nos pareçam humanamente absurdas e que se nos peça também “pescar ao meio-dia”, devemos confiar! Sem confiança na Palavra de Deus nunca poderemos empreender uma real evangelização. E pior ainda é quando apenas confiamos no poder, no dinheiro e nas influências dos poderosos deste mundo, aí é que não pescamos nada para Deus.
Jesus não permite que Pedro se aborreça com o insucesso de tanto trabalho sem nenhum resultado. É sempre necessário lançar novamente as redes, isto é recomeçar sempre. Não cabe ao discípulo calcular o resultado de seus esforços, mas confiando na Palavra ir semeando com generosidade e confiando no Senhor da messe.
Pedro então faz a experiência de ser limitado e pecador atirando-se aos pés do Senhor, mas isto não impede de Jesus chamá-lo para ser discípulo. Esta experiência mesma que fez Isaías em sua vocação, como vimos na primeira leitura, e que também fez o apóstolo Paulo como refletimos na segunda leitura.
Entra também em cena a barca dos sócios de Pedro, Tiago e João os filhos de Zebedeu. É interessante notar que estes três apóstolos estarão juntos em momentos especiais, como na Transfiguração (Mc 9,2) e na agonia de Getsêmani (Mt 26, 36-41), e constituíam o grupo dos prediletos do Senhor. Em nosso texto Pedro aparece sem dúvida nenhuma num papel de destaque, aliás, ele sempre é colocado em primeiro lugar no grupo dos apóstolos, o que indica a importância de “ministério petrino” na organização da comunidade cristã. Sobre este serviço de Pedro e de seus legítimos sucessores, já refletimos profundamente na solenidade de São Pedro e São Paulo.
Se Pedro aparece em destaque, isto não quer dizer que os outros dois apóstolos João e Tiago, que estavam também na pesca milagrosa, não tenham sido chamados para seguir o Mestre. O chamado foi para Pedro e para os outros dois, o que se depreende do espanto que eles experimentaram e que também os outros dois deixaram tudo para seguir a Jesus. Jesus chama Pedro para abandonar sua profissão e tornar-se “pescador de homens”. Precisamos compreender bem o que significa este ser “pescador de homens”. Sem dúvida os peixes estão em seu habitat dentro da água e se de lá forem retirados morrem. Imaginemos que os peixes pudessem falar, eles nos diriam então que nunca desejariam sair da água ou do mar! É bom também lembrarmos que o mar na cultura dos judeus era o local do caos e da desordem, ali habitavam monstros marinhos e a maldade! Por isto só Deus tinha poder sobre o mar e podia lhe impor limites, neste sentido é bom lembrar de Jesus que andando sobre as águas do mar ou acalmando a tempestade se revela como verdadeiro Deus (Jo 6, 16-21; Mc 4, 35-41). Diante disto podemos compreender que “pescar homens” é retira-los do lugar que não é o habitat humano, libertando-os da maldade e trazendo-os para uma vida plena. Assim a missão de Pedro e de todo discípulo, é de colaborar para que cada ser humano se torne livre da escravidão do pecado. O trabalho de todo evangelizador deve estar voltado para a libertação integral do ser humano. Num mundo que parece estar sendo tragado pelo mal e onde prolifera: o ódio, a guerra, a corrupção, a divisão na família, a injustiça, a fome, a ignorância, a mentira, a violência... Os seguidores de Jesus têm a missão de colaborar na libertação das pessoas de todas estas mazelas, e leva-las a ter uma vida de maior qualidade. É neste sentido que, a comunidade cristã deve se esforçar para mostrar a todos ser possível uma nova sociedade fundada nos valores do Evangelho: de partilha, de perdão, de misericórdia, de justiça, de paz, de serviço e de respeito a todos sem criar exclusões.
Ainda é de se notar que, antes de fazer o chamado Jesus diz a Pedro que ele não deve ter medo, mais uma vez estamos diante da garantia da presença de Deus junto aquele que Ele envia! Como já analisamos outras vezes o medo paralisa, leva a inação. O profeta ou o enviado de Deus nunca está sozinho porque Deus sempre está com ele.
Termina nosso texto, mostrando a resposta concreta de Pedro, Tiago e João que deixaram suas barcas e redes na praia, e se puseram a seguir Jesus. Agora estamos bem no núcleo de nosso texto que é o fundamental convite ao “seguimento do Senhor”.
Mais de trinta vezes se conjuga o verbo “seguir” a Jesus nos Evangelhos, e desde o começo a comunidade cristã percebeu que a vocação fundamental do cristão é o seguimento do Senhor, ou o “discipulado”. Esta vocação é essencial e insubstituível, se ela faltar tudo o mais que se constrói sem este alicerce sólido acaba ruindo. As diversas vocações e carismas são conseqüências da vocação batismal e do seguimento do Senhor. Neste sentido todo cristão é primeiramente um discípulo, seja Papa, Bispo, Padre, Religioso ou Leigo! Ninguém está dispensado de sentar-se aos pés do Senhor para ouvi-lo e instruir-se com suas sábias palavras. Ninguém está também dispensado de seguir as orientações do Mestre que indica sempre o rumo para onde a barca deve seguir, seja a barca de nossa vida pessoal, a barca da comunidade cristã ou a barca do mundo.
Depois do Concilio Vaticano II e de tantos documentos posteriores da Igreja, é um absurdo ignorar o chamado universal a santidade e o “seguimento de Jesus” como realidades fundamentais. Muitos fracassos vocacionais se devem ao fato da pessoa não levar a sério sua vida cristã. Sem procurar ser verdadeiramente cristão e discípulo de Jesus fica mesmo impossível perseverar em qualquer ministério eclesial. Ainda infelizmente existem pessoas que buscam grandiosos cargos que lhes dêem privilégios, primeiros lugares, poder sobre os demais, e não estão nem um pouco interessadas em servir os irmãos! São mesmo uns pobres e infelizes, pois constroem suas vidas sobre a frágil areia, e numa tempestade tudo irá certamente desmoronar (Mt 7, 24-27).
Também precisamos abandonar a idéia de que o leigo não tem importância na vida da Igreja. Muita gente ainda pensa que, o fiel leigo é apenas um ajudante e deve funcionar porque existe muita falta de ministros ordenados. Este tipo de conceito é um verdadeiro absurdo teológico, e é contra o próprio Evangelho que coloca a todos numa fundamental igualdade como discípulos de Jesus. O leigo tem seu papel importantíssimo numa Igreja que dizemos ser toda ministerial. Cada pessoa tem a mesma vocação fundamental: seguir Jesus, e depois cada cristão terá sua missão específica, ou ministério, para o bem comum de todos.
Caro irmão, Isaías, Paulo e Pedro sentem-se fracos e limitados diante do chamado de Deus e da missão que foram investidos. Que eles hoje nos ensinem a não termos medo frente a nossa vocação cristã. Somos fracos e por isto mesmo muito amados por nosso Deus! Não tenhamos nenhum receio de apresentar ao Senhor nossas fraquezas, mas que não o façamos como desculpa para rejeitar a nossa missão! Confiemos sempre em Deus, pois com instrumentos frágeis Ele realiza sempre grandiosas maravilhas!
Somos chamados a ser seguidores e discípulos de Jesus, será que de fato nos conscientizamos desta importantíssima e fundamental vocação?
Discípulo é aquele que ouve, será que buscamos mesmo ouvir o Senhor? Estamos atentos à Palavra de Deus na Escritura, e a seus apelos nos acontecimentos da vida e na boca de nossos irmãos?
Para seguir o mestre de Nazaré é preciso fazer como os apóstolos, que deixaram tudo na beira do mar e se puseram a caminho. Nesta semana fica para todos nós uma grande pergunta: que rede e que barca preciso deixar para ser um melhor discípulo do Senhor?
Pode ser que a rede, ou o barco, que tenhamos de abandonar na praia de nossa vida seja: o comodismo, a indiferença, a preguiça, o egoísmo, a avareza, a mentira, a injustiça, a falta de partilha, o ódio, a violência, e tantas outras coisas mais. Cada um de nós poderá avaliar bem fazendo nesta semana um sério exame de consciência.
Finalmente não nos esqueçamos do convite de Jesus feito aos seus apóstolos, logo após a proclamação de fé de Pedro em Cesaréia de Felipe: “Se alguém quer me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).



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