A FÉ E OS SINAIS.  “Faze aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum” (Lc 4, 23). No último domingo, o 4º do tempo comum, a liturgia, enfocando a vocação profética, exortou-nos a assumir e exercer nosso profetismo diante da sociedade. No evangelho de Lucas, o qual ouvimos, saltam aos olhos essas palavras de Jesus que, presumindo os pensamentos do povo, antecipam suas objeções.

            Jesus estava em sua terra, Nazaré, aldeia onde fora criado, e, segundo o costume, tomou a Palavra de Deus a fim de lê-la para os demais. Isso, num primeiro momento, é motivo de elogios, admiração e entusiasmo por parte dos presentes. Terminada a leitura, Ele faz menção ao seu messianismo, o que, consequentemente, gera espanto e incredulidade; afinal de contas, um nazareno, como os outros, estava se revelando como o Salvador prometido e esperado.

            Logo, a desconfiança cede lugar à incompreensão, rejeição e revolta. Jesus parece conhecer o pensamento dos judeus e isso nos lembra as palavras do salmista: “A palavra nem chegou à nossa boca, e já, Senhor, a conheces” (Sl 139, 4). O Filho de Deus estava fazendo sua homilia, anunciando seu Evangelho, sua Boa Nova, que não é outra, senão a chegada do Reino de Deus; enfim, era o anúncio da mensagem divina. Mas isso era muito pouco, deveras insuficiente para despertar a fé dos ouvintes da sinagoga.

            Os nazarenos queriam, de acordo com seu modo de pensar, algo maior, um sinal visível, um feito mágico e espetacular. As curas foram, sem dúvida, fundamentais na pregação de Jesus; através delas, Ele mostrou um Deus que vai ao encontro dos sofrimentos da humanidade e, além disso, manifestou-se como o Messias. Entretanto, elas não foram a única coisa, nem a mais importante, que Jesus trouxe. Como disse o Papa Bento XVI, em seu livro Jesus de Nazaré, “Cristo trouxe o que somente ele podia trazer: o próprio Deus”.

            A credibilidade e a fé seriam outorgadas a Jesus de Nazaré caso realizasse um gesto admirável entre eles. A exigência de tais sinais permeou toda a caminhada do Filho de Maria, até mesmo na cruz, pelo insulto dos chefes dos sacerdotes: “Se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos nele” (Mt 27, 42).

            Lamentavelmente, passados dois milênios, o comportamento dos contemporâneos de Jesus continua sendo imitado pelo homem pós-moderno. Seu evangelho, sua proposta salvífica e seu exemplo de vida permanecem ainda abaixo das expectativas, não suficientes para despertar a fé da humanidade, que clama por sinais concretos. Alguns cristãos, até mesmo os mais fervorosos, persistem na busca de um Deus que lhes satisfaça os desejos pessoais, trazendo-lhes paz, prosperidade, alegria, facilidade nos negócios, saúde... Essa fé é, no mínimo, perigosa, pois pode lançar a semente de uma futura e, quase certa, decepção com o Divino, visto que a pessoa cria uma imagem distorcida de Deus, diferente daquela revelada por Jesus, e põe nela toda sua esperança.

            Lembremo-nos das palavras do Cristo: “Esta geração é má: exige um sinal, mas nenhum outro sinal lhe será dado exceto o de Jonas. Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração” (Lc 11, 29-30). Jonas não realizou milagres, mas sua pregação e presença bastaram para a conversão do povo de Nínive. Da mesma forma, o grande e definitivo sinal de Deus é o seu Filho, Jesus Cristo. E o seu milagre mais visível foi a crucifixão, na qual, de braços abertos, mostrou o verdadeiro sentido da existência: insistir, até às últimas consequências, para que o bem prevaleça.

            Por fim, escutemos o ensinamento do apóstolo Paulo, no seu escrito aos coríntios: “Porque os judeus pedem sinais e os gregos procuram sabedoria, nós anunciamos o Messias crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos, mas, para os chamados, um Messias que é força e sabedoria de Deus” (1 Cor 1, 22-24).