Padre alerta sobre a ideologia do consumismo

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Por Padre Antônio Aparecido Alves

A ideologia do consumismo

Existe uma mentalidade difusa de que a felicidade é resultado do acúmulo de bens materiais, de tal maneira que quanto mais se tem, mais feliz se é, e quanto menos posse, mais infelicidade. João Paulo II, na Encíclica Centesimus Annus, chama a isso de “fenômeno do consumismo”, que vai criando uma sociedade do supérfluo e do descartável (CA 36) e alimenta a ideologia do consumismo, onde o “ter” é mais valorizado que o “ser”.
Esta realidade não é nova, pois em 1979 o documento de Puebla, ao falar das visões inadequadas de homem na América Latina, denunciava a existência de uma visão consumista do ser humano, onde este é valorizado não pelo que ele é, mas pelo que possui. Assim, quem pode consumir e produzir tem valor e aquele que não pode é descartado (Puebla, 311).

 

O “ser” versus o “ter”

Na lógica da sociedade de consumo, a pessoa vale pelo que ela consome, pois as grandes marcas se tornam fetiches que valorizam aqueles que as ostentam. João Paulo II afirma que “não é mal desejar uma vida melhor, mas é errado o estilo de vida que se presume ser o melhor, quando ela é orientada ao ter e não ao ser, e deseja ter mais não mais para ser mais, mas para consumir a existência no prazer, visto como fim em si próprio” (CA 36). Por isso, é necessário educar os consumidores para uma utilização responsável de seu poder de escolha, bem como requerer aos profissionais de propaganda e empresários para que não criem falsas necessidades nas pessoas (idem).

Libertar-se do consumismo

Diante desta realidade, a CNBB convocou os cristãos a “darem testemunho de novos valores e hábitos, renunciando ao consumismo, evitando o desperdício e promovendo a sobriedade em prol de uma vida simples e frugal” (Documento 69, n. 58). Por sua vez, o Papa Francisco pediu aos jovens para nadar contra a corrente do consumismo e para não se abarrotarem de coisas supérfluas. Afirma o Pontífice que é necessário dizer “não” à cultura do provisório, da superficialidade, do usar e descartar (Mensagem do Papa Francisco para a XXIX Jornada Mundial da Juventude, 13/04/2014). Esse é um grande desafio, pois o consumo se tornou quase uma religião, com suas grandes catedrais (os shoppings) a disputar com o Deus da vida o coração das pessoas.

Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo (Rm 12, 5)

No livro dos Provérbios reza o sábio: “Duas coisas te peço; não mas negues, antes que eu morra: afasta de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o Senhor? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus” (Prov 30, 7-9). A fé cristã nunca teve como ideal de vida a indigência e a miséria, menos ainda a riqueza e a fortuna. A pobreza é indicada como o caminho a ser trilhado pelos cristãos. Aos que tem um espírito de pobre é prometido o Reino dos céus (Mt 5,1). Assim, pede o sábio que Deus lhe conceda sua porção de alimento, como Jesus ensinou-nos a pedir o pão para cada dia: “Dá-nos, a cada dia, o pão cotidiano” (Lc 11,3). Como cristãos, sejamos testemunhas de que um outro estilo de vida é possível, sem passar pela lógica do consumo. Mostremos ao mundo pela vida e pelas palavras que não são grifes e marcas famosas que dão valor às pessoas e que a existência humana não se mede pelo que ela consome ou produz.

Foto:Creative Commons

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