Homilia de Dom Paulo Cezar, por ocasião da Missa do Crisma

0
767

Amados Irmãos (as), amados Padres.

Estamos reunidos na Igreja mãe de nossa Diocese, a Catedral de São Carlos Borromeu, para a Santa Missa do Crisma. Esta celebração é cheia de significado para todos nós. Estamos aqui, como Presbíteros reunidos ao redor do Bispo, religiosos (as), diáconos, seminaristas, povo fiel. Esta celebração nos relembra que somos presbíteros, que formamos uma família, um presbitério, que não somos homens isolados, mas “estamos ligados entre nós por uma íntima fraternidade sacramental”, que o Sacramento da ordem criou entre nós. Através da Ordenação Sacerdotal formamos um corpo, um presbitério, onde nos sentimos unidos uns aos outros não por vínculos de sangue, de amizade, mas pela graça sacramental que nos tornou uma verdadeira família, que tem um nome bem claro: “Presbitério da Diocese de São Carlos”.

Ouvimos a Palavra de Deus que na Primeira Leitura nos apresentou um texto do Profeta Isaías onde um personagem é ungido e enviado para anunciar a boa nova aos pobres, para curar, para proclamar a libertação, para proclamar o ano da Graça do Senhor. Tantas personagens no Antigo Testamento foram ungidos e enviados para uma missão. Mas, este texto traz um significado bem mais profundo. O Evangelho de Lucas que foi proclamado, revelou o seu verdadeiro significado.

Jesus está na sinagoga de Nazaré. Nazaré é sua terra natal, lugar onde todos o conhecem, o viram crescer, tem relação com a sua família. A sinagoga é o lugar da leitura da Palavra de Deus. Os judeus se reuniam na sinagoga todos os sábados para ouvirem a Leitura da Palavra. A sinagoga era casa da Palavra. Em tantos outros momentos encontramos Jesus na sinagoga. O texto salienta: “segundo o seu costume”. Em Nazaré, Jesus desde a sua juventude tinha frequentado regularmente o serviço litúrgico sinagogal todos os sábados e dias festivos. Jesus tinha uma grande familiaridade com as Escrituras do seu Povo. Jesus conhece as Escrituras, as cita, as manda colocar em prática. “Segundo o seu costume”, coloca em luz a fidelidade de Jesus a religião do seu povo, nos mostra que a fé cristã não nasceu de um aventureiro, mas de um representante do autêntico Israel, no qual o fruto chegou à maturidade.

Jesus se levanta para fazer a leitura pública. Deve ser entendido como um ato que se cumpre aqui, pela primeira vez e que cria expectativa. Todo israelita podia apresentar-se para a leitura, mas, aqui, contrariando um costume, segundo o qual seria o presidente da sinagoga que convidava alguém para ler; vem sublinhada a iniciativa de Jesus, mostrando ou sublinhado de onde vem a sua autoridade. Ele é o fundamento da sua própria autoridade.

Jesus recebe o Livro do Profeta Isaías, o desenrola e encontra o texto do Profeta. Jesus mostra que este texto de Isaías se cumpre Nele. Então leiamos o texto, percebendo que aqui se tem uma síntese do Ministério de Jesus, da sua missão. O texto inicia afirmando que Jesus foi ungido pelo Espírito Santo. Jesus quando se submeteu ao rito de João Batista, que batizava no Jordão, o Espírito desceu sobre Jesus, foi a unção messiânica de Jesus. O Filho de Deus foi ungido pelo Espírito e desenvolverá o seu ministério na força do Espírito.

O centro do Ministério de Jesus foi o anúncio do Reino de Deus. Neste anúncio, Deus manifesta que a sua salvação atinge a pessoa humana na sua integralidade. O anúncio da Boa Nova aos Pobres, seguido de categorias muito concretas de pessoas: presos, cegos, oprimidos, devia soar provocante para os ouvintes de Jesus e também para a comunidade de Lucas. Jesus se apresenta como profeta escatológico que inaugura o evento do tempo final, a libertação definitiva. A obra da salvação de Jesus faz sentir os seus efeitos bem concretos na história. A atitude de Jesus, pretendia neste texto de Lucas na, Sinagoga de Nazaré, será a tônica de todo o Ministério de Jesus, demonstrada em tantos outros momentos da sua vida pública.

Jesus termina a leitura, enrola o rolo, entrega ao servente e se senta. Todos na Sinagoga tinham os olhos fixos Nele. Então começou a dizer: “hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa Passagem da Escritura”. O hoje da salvação proclamado por Jesus na Sinagoga de Nazaré se realiza no hoje da Igreja, pois o Espírito que ungiu Jesus continua a assistir e a santificar a Igreja. Assim, a Igreja leva adiante no hoje da história a missão salvifíca de Jesus. Celebrar esta quinta-feira Santa, ouvindo estes textos bíblicos, percebemos alguns elementos para o nosso caminho pessoal e de Igreja diocesana.

Jesus está na Sinagoga de Nazaré, “segundo o seu costume”. Esta expressão relembra a familiaridade de Jesus com seu povo. É fundamental, caros padres, este contato diário com a Palavra de Deus. A constituição sobre a revelação do Concílio Ecumênico Vaticano II, Dei Verbum, nº 25 nos alerta: “…é necessário que nos consagremos ao ministério da Palavra, nos apeguemos as Escrituras por meio de assídua leitura sacra e diligente estudo, para que não venha a ser “vão pregador da Palavra de Deus externamente quem não a escuta interiormente”. A Escritura é Deus presente que me interpela. Escutando a sua Palavra, e como se vivêssemos a sua própria boca” (São Gregório Magno). “A Escritura é a mesa de Cristo… a qual nos alimentamos, compreendemos aquilo que devemos amar, desejar e em que ter os olhos fixos’ (Alcuino)

Jesus foi o grande Evangelizador, o Pai o ungiu com o Espírito Santo e o enviou para Evangelizar, a sua missão foi proclamar a Boa Nova, Evangelizar. Encontramos nos Evangelhos, Jesus que vai de aldeia em aldeia para anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. O texto do Livro do Apocalipse que ouvimos disse: “… Aquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados com seu sangue, e fez de nós uma realeza de sacerdotes, para Deus, seu pai…” (Ap 1,5). Cristo fez de nós um povo sacerdotal, a Igreja é um povo sacerdotal. A unção do Espírito Santo, recebida por Jesus na encarnação e na teofania do Jordão, é transmitida a todos os membros do Povo de Deus, através do batismo e da crisma. A benção dos Santos Óleos dos catecúmenos, dos enfermos e a consagração do crisma expressam esta realidade. Esta Missa Crismal é uma manifestação da Igreja, corpo de Cristo organicamente estruturado, que, em seus vários ministérios e carismas, exprime pela graça do Espírito Santo, os dons nupciais de Cristo à sua esposa peregrina no mundo.

Assim, todos os membros da Igreja, participam a seu modo, da Missão de Cristo. Daqui nasce a corresponsabilidade de todo o corpo em assumir a ação Evangelizadora a exemplo de Jesus Cristo. Evangelizadores que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo. O Espírito nos dá a força para anunciarmos o Evangelho com ousadia (parresia), em voz alta e em todo tempo e lugar, mesmo contra a corrente. Uma Igreja Evangelizadora é uma Igreja em saída. Jesus, o grande Evangelizador nos conduz a sermos uma Igreja evangelizadora, onde todos, presbíteros, diáconos, seminaristas, leigos (as), como povo sacerdotal somos enviados em missão. Esta missão envolve a todos nós.

Nós, meus queridos sacerdotes, também fomos ungidos. O Espírito nos ungiu. A unção nos configurou a Cristo, ao sacerdócio de Cristo, nos deu uma identidade. Somos homens ungidos, fomos configurados a Cristo Bom Pastor. “A unção penetrou no íntimo do nosso coração, configurou-o e fortificou-o sacramentalmente. Os sinais da liturgia da ordenação falando-nos do desejo materno que a Igreja tem de transmitir e comunicar tudo aquilo que o Senhor nos deus: a imposição das mãos, a unção com o santo crisma, o revestir-se com os paramentos sagrados, a participação imediata na primeira consagração… A graça enche-nos e derrama-se íntegra, abundante e plena em cada sacerdote. Ungidos até aos ossos…” A missão é eco dessa unção (Papa Francisco, homilia da quinta-feira Santa 2014)

Meus caros padres, na carta que vos dirigi convidando para a Missa desta quinta-feira Santa, afirmei: “o presbítero é chamado a prolongar a presença amorosa de Cristo, Pastor Bom e Belo”. “O ser Pastor é sempre um ser com as ovelhas, e ser pastor no Pastor Jesus, no qual toda pastoralidade encontra o seu verdadeiro sentido, se mostra no dom da vida, para doar às ovelhas a verdadeira vida”. “É da nossa configuração a Cristo Bom Pastor que provém a nossa caridade pastoral, participação na mesma caridade de Cristo, dom gratuito do Espírito Santo e ao mesmo tempo missão e apelo a uma resposta livre e gratuita” (PDV 23). Jesus, na Sinagoga de Nazaré nos indica este caminho de Pastor Bom e Belo. A sua unção exalou durante todo o seu ministério. Cristo ungiu as pessoas com o óleo da cura, do anuncia do Reino, da libertação do poder do demônio, do acolher as pessoas, com o óleo da misericórdia, etc. O Presbítero, também, a exemplo de Cristo tem que ungir. A unção ordena-se para ungir o povo fiel e santo de Deus: para batizar e confirmar, para curar e consagrar, para abençoar, para consolar e evangelizar. Padres que exalam o bom odor da unção de Cristo, Bom Pastor, ungindo o nosso povo.

Que o Espírito Santo nos conduza por este caminho. Amém.

Deixe uma resposta