Dom Paulo fala ao Clero da Diocese de São Carlos sobre a Conversão Pastoral

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Por Assessoria de Imprensa

Na manhã desta quinta-feira, 22 de junho, Dom Paulo Cezar Costa falou ao Clero da Diocese de São Carlos, reunido no Centro Diocesano de Pastoral, em São Carlos, sobre a importância da Conversão Pastoral. Confira abaixo a íntegra do discurso de nosso Bispo:

“Para entrarmos neste tema da Conversão Pastoral, é necessário definirmos o sentido da palavra conversão e da palavra pastoral. A palavra conversão aparece diversas vezes no Antigo e no Novo Testamento. No hebraico encontra-se o verbo sûb, que traduz a ideia de mudar de caminho, de voltar para Deus. Nisto se define o essencial da conversão, que implica uma mudança de conduta, uma nova orientação de todo comportamento. A Bíblia Grega usa conjuntamente epistrephein, que trás a conotação de retorno para Deus, daí resultando uma mudança da conduta prática e o verbo metanoein, que visa a virada interior. A palavra metanóia significa arrependimento, mudança. A conversão significa uma mudança de rota, uma mudança de percurso. Santo Agostinho diz que a conversão “implica a mudança de um pior para um melhor”.

A palavra pastoral designa a atividade da Igreja, seja no seu interior, seja na sua relação com o mundo.  Há uma disciplina na Teologia que se chama Teologia Pastoral. Pastoral, significa também, uma maneira de compreender o conjunto da Fé, e então, de vivê-la. João XXIII já na define o que entende por Pastoral. Diz ele: A Igreja quer apresentar a sua doutrina de forma que corresponda às exigências do nosso tempo. Cito as tão conhecidas palavras de João XXIII: “O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige… É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo. De fato, uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa veneranda doutrina, e outra coisa é o modo com o qual elas são enunciadas, conservando nelas, porém, o mesmo sentido e o mesmo resultado” (S. Oec. Conc. Vat. II Constitutiones Decreta Declarationes, 1974, pp. 863-865).

A pastoral remete ao centro da vida da Igreja, pois ela vive para Anunciar o Evangelho, para proclamar a sua Fé. Todos são envolvidos na Pastoral.  Se o olhar de alguém se restringe e não torna coerente, visível a missão da Igreja, não é, então, empenhado na Pastoral. São Gregório Magno diz que “o empenho pastoral é a prova do Amor”.

Evangelii Gaudium relembra que o Concilio Vaticano II já fala da necessidade de Conversão Eclesial: “O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: «Toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação. (…) A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma perene. Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma”. No n. 26, Evangelii Gaudium relembra que papa Paulo VI já falava da renovação da Igreja. Diz, citando Paulo VI: “Lembremos este texto memorável, que não perdeu a sua força interpeladora: «A Igreja deve aprofundar a consciência de si mesma, meditar sobre o seu próprio mistério (…). Desta consciência esclarecida e operante deriva espontaneamente um desejo de comparar a imagem ideal da Igreja, tal como Cristo a viu, quis e amou, ou seja, como sua Esposa santa e imaculada (Ef 5, 27), com o rosto real que a Igreja apresenta hoje. (…) Em consequência disso, surge uma necessidade generosa e quase impaciente de renovação, isto é, de emenda dos defeitos, que aquela consciência denuncia e rejeita, como se fosse um exame interior ao espelho do modelo que Cristo nos deixou de Si mesmo”. O Documento da V Assembleia do Episcopado Latino Americano e Caribenho, Documento de Aparecida fala de conversão Pastoral: N. 365, 366, 368, 370.Recordemo-nos que Papa Francisco, o então cardeal Jorge Mário Bergolio foi o chefe da equipe de redação do Documento de Aparecida.

Quando Papa Francisco fala em conversão Pastoral, fala de mudança de conduta da Igreja na sua ação. É claro que esta mudança de conduta parte de um voltar-se para a sua referência, Jesus Cristo e seu Evangelho, tornando a Igreja mais Evangelizadora e Missionária: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma «simples administração, constituamo-nos em «estado permanente de missão», em todas as regiões da terra”. Ainda papa Francisco: “Há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador; de igual modo, as boas estruturas servem quando há uma vida que as anima, sustenta e avalia. Sem vida nova e espírito evangélico autêntico, sem «fidelidade da Igreja à própria vocação», toda e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco tempo”. A Igreja, na sua caminhada não pode ser indiferente, ou morna diante do seu Senhor. Relembremos a condenação à Igreja de Laodicéia: “Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca” (Ap 3, 15-17).

  1. Alguns aspectos desta conversão Pastoral

Depois de abordarmos o que se entende por Conversão Pastoral, trataremos de alguns aspectos desta conversão.

  1. Como ponto de partida da Conversão Pastoral está a conversão pessoal. A abertura de cada crente a escuta do Senhor, através do seu Espírito, conduz a buscar responder aos desafios da missão e da Evangelização hoje. O Documento de Aparecida já tinha afirmado que “a conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço do Reino da vida. Os bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, são chamados a assumir atitudes de permanente conversão pastoral, que implica escuta com atenção e discernir ‘o que o Espírito está dizendo às Igrejas` (Ap 2, 29) através dos sinais dos tempos em que Deus se manifestará”.
  2. Conversão Fraterna e Comunitária

A fé cristã nos tira do isolamento e por sua própria dinâmica, nos insere na comunidade. A profissão da Fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. O primeiro sujeito da Fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o batismo, sinal da entrada no povo dos crentes. É na comunidade eclesial que se vive a fé, que se aprofunda a fé e se celebra a fé na Liturgia. A vivência do Amor a Deus conduz ao amor ao próximo, são inseparáveis. O serviço da caridade é parte integrante da Igreja. Ela não pode transcurar este serviço, como não pode negligenciar os sacramentos e a palavra.  A sua natureza íntima exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-Martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia) e serviço da caridade (diakonia) .Porém, a caridade aponta para uma dimensão alta da realidade da fé, pois a conversão a Jesus Cristo é também conversão ao seu Reino, pois Jesus Cristo e o Reino de Deus são inseparáveis; “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6, 33).O que implica colocar a caridade na dimensão do Reino de Deus. Papa Francisco afirma: “Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa resposta de amor também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma «caridade por receita», uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos”.

Madre Tereza num momento de sua vida percebeu a incidência da Fé na sociedade. Esta percepção lhe conduz à conversão social. Papa Francisco tem a capacidade de unir a Espiritualidade com a dimensão Social e Missionária.  A missão não é uma etapa posterior da formação, mas é concomitante, são as duas faces da mesma moeda.

3. Conversão para a Nova Evangelização e Missão: Os temas da Evangelização e da Missão estão do coração de Papa Francisco e então, da Evangelii Gaudium. O subtítulo da Evangelii Gaudium é: Sobre o Anúncio do Evangelho no Mundo Atual. Como se vê, pelo subtítulo, no centro está o Anúncio do Evangelho. O grande Documento Evangeli Nunciandi já tinha se detido sobre este tema. Evangelizar é entregar a vida para dar vida aos outros: “Quando a Igreja faz apelo ao compromisso Evangelizador, não faz mais do que indicar aos cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal: ‘Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: a vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros”. Jesus é o primeiro Evangelizado e o maior Evangelizador. Em qualquer forma de Evangelização, o primado é sempre de Deus, que quis nos chamar para colaborar com Ele e nos impelir com a força do seu Espírito.

No n. 14 de Evangelii Gaudium, Papa Francisco relembra o Sínodo sobre a Nova Evangelização, realizado em 2012, sobre o tema: A nova evangelização para a transmissão da fé cristã e recorda que a Nova Evangelização interpela a todos, realizando-se fundamentalmente em três âmbitos: “ Em primeiro lugar, mencionamos o âmbito da pastoral ordinária, «animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna». Devem ser incluídos também neste âmbito os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora não participem frequentemente no culto. Esta pastoral está orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus. Em segundo lugar, lembramos o âmbito das «pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Baptismo», não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho. Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã. Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas «por atração».

A atividade missionária representa o máximo desafio para a Igreja e a causa missionária deve ser a primeira de todas as causas. Quando trata de uma renovação eclesial inadiável, papa Francisco diz: “A reforma das estruturas, que a conversão Pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de “saída” e assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade”. O Documento de Aparecida, n. 370 afirma: “A Conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”. Uma expressão muita usada por Papa Francisco: Uma Igreja “em saída”, quer dizer, uma Igreja missionária. Na palavra de Deus aparece este dinamismo “de saída”; no ide do mandato de Jesus (Mt 28, 19-20) estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Hoje todos são chamados a esta nova “saída” da Igreja. A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos (Lc 10,17) é uma alegria missionária.

A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão reveste essencialmente a forma de uma comunhão missionária. A Igreja “em saída” é a comunidade de discípulos missionários que “primeireiam”, que se envolvem, que acompanham, que frutificam, que festejam. Primeireiam tomam a iniciativa. A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor .

4.Reformar estruturas: desde cúrias, até Dioceses, Paróquias, comunidades, tornando-as mais missionárias. Citarei somente duas realidades que nos são muito próximas que é a paróquia e a Igreja particular, isto é, a Diocese.

4.1. Paróquias -No n. 28 da Evangelii Gaudium, tratando da pastoral em conversão, Papa Francisco trata da paróquia: “A paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade missionária do Pastor e da comunidade. Embora não seja certamente a única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar e adaptar constantemente, continuará a ser «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas». Isto supõe que esteja realmente em contato com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmos. A paróquia é presença eclesial no território, âmbito para a escuta da Palavra, o crescimento da vida cristã, o diálogo, o anúncio, a caridade generosa, a adoração e a celebração. Através de todas as suas atividades, a paróquia incentiva e forma os seus membros para serem agentes da evangelização. É comunidade de comunidades, santuário onde os sedentos vão beber para continuarem a caminhar, e centro de constante envio missionário. Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-as ainda mais próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e participação e orientando-as completamente para a missão”.

4.2. A Igreja particular – No n. 30 trata da Igreja particular: “Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a guia do seu Bispo, está, também ela, chamada à conversão missionária. Ela é o sujeito primário da evangelização, enquanto é a manifestação concreta da única Igreja num lugar da terra e, nela, «está verdadeiramente presente e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica». É a Igreja encarnada num espaço concreto, dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua preocupação por anunciá-Lo noutros lugares mais necessitados, como numa constante saída para as periferias do seu território ou para os novos âmbitos socioculturais. Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado. Para que este impulso missionário seja cada vez mais intenso, generoso e fecundo, exorto também cada uma das Igrejas particulares a entrar decididamente num processo de discernimento, purificação e reforma”.

Dando vida a novas formas de Evangelização, a Igreja quer chegar a todas as realidades.

Conclusão

A conversão missionária que Papa Francisco propõe a Igreja, toca a todos. Implica deixar para trás, mudar, num desejo de fidelidade ao que pede o Espírito, ideias, estruturas, metodologias que não respondem mais ao desafio do anúncio do Evangelho e da missão. A reforma das estruturas, que a conversão Pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de “saída”. No n. 33, Papa Francisco faz uma boa síntese de como entender a pastoral em chave missionária: “pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a traduzir-se em mera fantasia. A todos exorto a aplicarem, com generosidade e coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos nem receios. Importante é não caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irmãos e, de modo especial, a guia dos Bispos, num discernimento pastoral sábio e realista””.

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