Ecumenismo e espiritualidade

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    Por Padre Rene José de Sousa

    O Espírito Santo sopra onde quer (Jo 3,8,) e por meio de seu hálito vital abre caminhos e dá vida  e renova todas as coisas (Sl 104,30). Os meios que ele utiliza “não segue o caminho da violência, mas o da suavidade. Nem por isso sua ação é menos eficaz” (SPINSANTI, in: Fiores; (etall), 1989, p.304). É vento impetuoso (At 2,2), que por meio de seu sopro conduz todo as coisas para sua plena realização, mas sempre de forma gradual, pois existe um tempo pra cada coisa  debaixo do céu (Ec 3,2).

    O Concílio Vaticano II, trouxe novidades e também uma espiritualidade própria de seu movimento inspirada pelo Espírito Santo. A espiritualidade da unidade ou ecumênica, não tem como pano de fundo o dualismo helênico, mas a unidade e a totalidade da realidade humana em suas diversas facetas. É uma espiritualidade que proporciona a conversão sincera do coração (UUS, 15) para acolher o outro. Acolher não é somente abrir as portas de casa, mas a do coração. Eis o ponto de partida de tal espiritualidade, ser um movimento de coração pra coração, criando ressonância no externo, nos relacionamentos mútuos, no modo em que o indivíduo se relaciona e se apresenta na sociedade.  “Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. Por isso, devemos implorar do Espírito divino a graça da sincera abnegação, humildade e mansidão em servir, e da fraterna generosidade para com os outros.

    «Portanto – diz o Apóstolo das gentes – eu, prisioneiro no Senhor, vos rogo que vivais de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros em caridade, e esforçando-vos solicitamente por conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz» (Ef. 4, 1-3)” (UR 7). É uma conversão espiritual que amadurece o ser humano, despindo-o de sua autossuficiência, fazendo-o retornar para uma comunhão profunda com Deus Uno e Trino, servindo-o naqueles que sofrem, independente do rótulo institucional que trazem consigo.

    É o buscar e viver o sentido espiritual próprio da palavra ecumenismo (oikoumene), estar no mundo habitado, casa comum (NAVARRO, 2002, p. 125) e ser fraterno, reconhecer-se irmão com outros. Mas para tal comportamento é preciso amar, pois, “quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor (1Jo 4,8)”. O amor de Cristo dá a limpidez de olhar necessário para conhecer o outro em seu mistério; mas o próprio amor se nutre de conhecimento, quando não quer degenerar em vago sentimentalismo” (SPINSANTI, 1989, p. 308). É o fazer prevalecer o amor fraternal (Hb13,1), expurgando o temor que possa surgir em se deparar com o outro (diferente),pois aquele que teme não é perfeito em amor (1Jo 4,18). O Concílio Vaticano II vai afirmar que a oração é a alma do ecumenismo, e entende-se por alma aquilo que é o princípio dos movimentos vitais, força vital, vida  e por isso, sem ela é impossível.

    A conversão do coração e a santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser tidas como a alma de todo o movimento ecumênico, e com razão podem ser chamadas ecumenismo espiritual (UR 8).

    É pela via da oração sincera que Jesus nos dá a certeza de alcançarmos o propósito da unidade (Mc 11,24). “A oração comum, à união orante daqueles que se congregam em volta do próprio Cristo. Se os cristãos, apesar das suas divisões, souberem unir-se em cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo, crescerá em sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com aquilo que os une” (UUS, 22). É o confiar que estando reunidos em nome de Cristo ele se faça presente (Mt 18,20), gestando em nós uma comunhão de oração que “permita-nos voltar à verdade evangélica das palavras: “Um só é o vosso Pai” (Mt 23,9). […] A oração ecumênica descobre esta dimensão fundamental da fraternidade em Cristo, que morreu para reunir na unidade todos os filhos de Deus que estavam dispersos […]” (UUS, 26).

    Segundo Juan Bosch Navarro, “as características da espiritualidade ecumênica seriam: totalidade de intenção, isto é, consciência de que a causa da unidade é uma urgência extrema: sofrimento diante do espetáculo do “Cristo roto”; alegria, ao saber-se que se está nas mãos de um Deus que deseja a reconciliação; e fraternidade, pois aqueles que rezam sentem-se mais próximos, embora ainda não tenham alcançado a plenitude que buscam” (NAVARRO, 2002, p.134). Como percebemos, a espiritualidade ecumênica possui características próprias que legitimam sua ação e eficácia, pois provém do coração, do mais íntimo do ser humano, onde habita Deus (1cor, 3,16;6,19), por isso afirmamos que é um movimento espiritual, e não  vão interesse humano inflamado pelo orgulho.

    Segundo Spinsanti em seu verbete ecumenismo espiritual no dicionário de espiritualidade, são três as dimensões da espiritualidade ecumênica, que são: Conversão, diálogo e serviço.  E tais dimensões podemos perceber claramente no decreto Unitatis Redintegratio, e seus frutos na Igreja a partir de atitudes como por exemplo, a semana de oração pela unidade dos cristãos, onde “não se reza mais pela volta dos outros, mas pela santificação de todos” (SPINSANTI, in: Fiores; (etall), 1989, p. 306).

    Pois aqueles que supostamente retornariam, estão unidos em oração, para que sejamos santos como nosso Pai celeste é (Mt 5,48). “Tendo ponderado tudo isso, este sagrado Concílio renova o que foi declarado pelos sagrados Concílios anteriores e também pelos Pontífices Romanos: para restaurar ou conservar a comunhão e a unidade, é preciso «não impor nenhum outro encargo além do necessário» (At.15, 28). Veementemente deseja também, que nas várias instituições e formas de vida da Igreja, se envidem todos os esforços para uma gradual concretização desta unidade, principalmente pela oração e pelo diálogo fraternal em torno da doutrina e das necessidades mais urgentes do ministério pastoral de hoje.” (UR 18).

    Com a caída de tal cercado, proporcionará que a Igreja respire com os seus dois pulmões, oriental e ocidental (UUS,54), possibilitando que os convivas se reconheçam e trabalhem juntos, unidos pela fé, em prol da casa comum (NAVARRO, 2002, p. 125), onde Deus armou sua tenda (Jo1,14; Sl 46,5).

    Foto: Diego Bortolin

     

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