Esta tarefa não é comigo

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    Por Frei João Carlos Romanini

    São minúsculos grãos de areia que desenham praias imensas; o mar é formado por pequenas gotas de água

    No final dos seis simbólicos dias da Criação, Deus olhou sua obra e viu que tudo era bom (Gn 1,31). A bondade inicial daquela primeira manhã não durou muito. Adão e Eva pisaram na bola. Naturalmente ninguém quis assumir a responsabilidade. E isto continua no dia de hoje. Todos estão cheios de boa vontade e todos querem reformar o mundo. Mas começam no lugar errado: os outros. A tese é ilustrada por quatro irmãos, de nomes e vida complicados. Assim se chamavam: Alguém, Ninguém, Qualquer  Um e Todo Mundo.

    Diante de um trabalho a ser feito, Todo Mundo tinha certeza que Alguém o faria. Qualquer Um poderia tê-lo feito, mas Ninguém fez. Diante do impasse, Alguém ficou zangado porque era um trabalho que Qualquer Um podia fazer, mas Ninguém imaginou que Todo Mundo deixaria de fazê-lo. No final, Todo Mundo culpou Alguém porque Ninguém fez o que Qualquer Um poderia fazer.

    Somadas as atitudes dos quatro irmãos, o mundo ficou como está. Por vezes, se imagina que pecar é fazer algo de errado. Eu não fiz nada, justificam-se muitos. Porque muitos não fazem nada, a confusão é geral. Trata-se do grande pecado de omissão. Pilatos não fez nada e até mostrou isso lavando as mãos. Mesmo assim foi cúmplice da maior injustiça praticada na Terra. Martin Luther King lamentava-se: “O que me assusta não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

    São minúsculos grãos de areia que desenham praias imensas; o mar é formado por pequenas gotas de água; letras e mais letras originam poemas; com pobres centavos formamos um milhão e reduzidos minutos somam horas, dias, séculos e milênios. Uma eleição pode ser ganha por um voto e alguns segundos significam a vitória ou a derrota numa competição olímpica.

    E não devemos desejar o reconhecimento do vizinho, a citação no jornal, o diploma da Prefeitura. Depois que tivermos feito a nossa parte, com tranquilidade, admitamos: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17,10).

    Não conseguiremos mudar o mundo, mas mudamos alguma coisa, a partir de nós mesmos. E nem teremos ganhos em acusar os outros. Quem são os outros? São eles, os políticos, os filhos, os pais, os vizinhos, os funcionários públicos, os padres… os outros.

    Deixe Todo Mundo em paz, não acuse a Ninguém, nem vire o rosto para Alguém porque Qualquer Um poderia fazer isto. Você fez  a diferença.

    **Texto extraído do dite: www.capuchinhos.org.br

    Imagem: divulgação

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