Desarmar-se

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    Por Dom José Alberto Moura, Arcebispo de Montes Claros (MG)

    Saber trabalhar para dominar o desejo de vingança é saber domar nossos instintos para nosso próprio benefício e também do semelhante. Até para usar bem da inteligência a pessoa que deseja tirar a vida do outro vai pensar bem nas consequências para si mesmo: a prisão, o “carimbo” ou a marca de criminoso para toda a vida, a consciência pesada, a discriminação… além do grande pecado diante de Deus e dos homens.

    O desarmamento pessoal do impulso de querer fazer justiça com as próprias mãos exige um rito, uma ascese ou exercitação, para não se deixar levar por um impulso emotivo momentâneo. No dito popular encontramos o dado de sabedoria que ensina a pessoa a contar até dez antes de tomar decisão precipitada. Na ascese cristã encontramos muitos meios para nos conter e, ao invés de retaliarmos ou nos vingarmos, vamos nos lembrar do ensinamento de Jesus: “perdoar… até aos inimigos… fazer o bem a quem nos odeia…”(Mateus 5,43.44). Já entre os antigos judeus havia o ensinamento: “Não tenhas no coração ódio contra teu irmão” (Levítico 19,17). A oração é outra fonte de paz e de força para o entendimento, a misericórdia e o perdão.

    Quando há a sublimação dos impulsos instintivos, a pessoa promove mais o entendimento, o diálogo na família, na comunidade e em toda a convivência humana. Promove-se o armistício entre facções, comunidades e nações. As guerras não terão mais cabimento. Até se diz no ditado popular: “Mais vale um mau acordo do que uma boa demanda”. O desgaste é menor, com menos prejuízo tensional e vivencial.

    Por outro lado, a ascese para o desarmamento de ânimo é vista na atitude da humildade. Ela leva a pessoa a perceber que não é melhor dos que os outros. Se esses erraram e erram, também nós erramos ou estamos sujeitos ao erro, talvez de modo pior do que os outros. O próprio Jesus adverte aos que queriam apedrejar a mulher adúltera: “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra”. Nessa perspectiva o apóstolo Paulo lembra: “Ninguém se iluda: se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez, para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus” (1 Coríntios 3,18).

    Jesus é o maior exemplo de vida e de ensinamento sobre o desarmamento de ânimo para o trato com o semelhante. Ele podia ter usado o poder que tinha para aniquilar seus opositores. Ao invés de condenar os inimigos ele ensina: “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’. Eu, porém, vos digo, não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!’” (Mateus 5, 38-39). Até do alto da cruz Ele pede perdão ao Pai pelos algozes dizendo que eles não sabem o que fazem (Cf. Lucas 23,34).

    É evidente que precisamos trabalhar e ajudar a tirar as causas dos ódios e dos entendimentos. Precisamos, porém, começar a fazê-lo com a nossa própria exercitação nesta prática. Se todos colaborarem para isso, teremos um mundo de menos agressões e desentendimentos!

    Fonte: CNBB

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