O Bispo Pastor

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2004

Por Cardeal Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro

O nosso amado Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro (RJ), Dom Paulo Cézar Costa, foi nomeado pelo Papa Francisco para ser o sétimo Bispo desta amada Diocese de São Carlos, no nosso natal Estado de São Paulo, vacante desde a renúncia de Dom Paulo Sérgio Machado.

Em linguagem canônica simples e direta, a Diocese tem no Bispo a sua unidade, seu princípio santificador e de universalidade para com toda a Igreja na ligação de unidade com o Papa, bem como sua apostolicidade, pois o Pastor daquela porção do Povo de Deus é o sucessor dos Apóstolos. Daí sua tríplice função, definida no cânon 375 do Código de Direito Canônico: é o Bispo o mestre da doutrina, o sacerdote do culto e o ministro de governo. Sua comunhão com a Igreja é o sinal da mesma comunhão dos fiéis.

Ele possui todo poder ordinário, próprio e imediato necessário para o exercício de sua missão, salvo naquilo que o Santo Padre reserva a si mesmo. No entanto, como temos ouvido do Papa Francisco, tudo o que a lei da Igreja expõe sobre o Bispo pode ser resumido em uma breve e concisa sentença: ele deve ser Pastor.
Em sua ação pastoral, o Bispo há de ter “solicitude para com todos os fiéis católicos de qualquer idade, condição social e origem, também para com aqueles que abandonaram a prática religiosa. E vai mais longe: não esquecer os fiéis de outros ritos, nem os irmãos de outras confissões religiosas, promovendo um sadio ecumenismo e, por fim, pense também nos não-batizados que se encontram em sua diocese. Uma categoria que merece especial atenção: os presbíteros; é preciso ouvi-los e ampará-los. Sejam mencionadas as vocações aos ministérios e à vida consagrada”. (Curso de Direito Canônico. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2004, p. 26).

No que toca à tríplice missão do Bispo, cabe-lhe evangelizar e defender a integridade da fé, santificar, fazendo com que todos os fiéis cresçam na graça de Deus, bem como aja na caridade e simplicidade, sobretudo rezando pelo povo a ele confiado e, por fim, governe a diocese com poder legislativo, executivo e judicial, promovendo a doutrina da Igreja, evitando abusos e promovendo ações pastorais eficazes.

O Papa Francisco assim se dirigiu aos novos Bispos no dia 10 de setembro de 2015: “Vocês são Bispos da Igreja, chamados e consagrados recentemente. Vieram de um encontro irrepetível com o Ressuscitado. Atravessando os muros de sua impotência, o Senhor os alcançou com a Sua presença, mesmo conhecendo suas falhas e abandonos, fugas e traições. Não obstante isso, Ele veio no Sacramento da Igreja e soprou sobre vocês. Este é um hálito que deve ser conservado, um sopro que abala a vida que nunca será a mesma de antes, mas que também dá serenidade e consola como a brisa suave”.

O Papa recordou ainda aos bispos que eles são testemunhas do Ressuscitado. “Esta é a sua primeira e insubstituível tarefa. Esta é a riqueza que a Igreja transmite também através de mãos frágeis. Foi-lhes confiada a pregação da realidade que sustenta todo o edifício da Igreja: Jesus ressuscitou! Aquele que subordinou a própria vida ao amor, não podia permanecer na morte. Deus Pai ressuscitou Jesus! Também nós ressuscitaremos com Cristo”. Isso deve pregar o Bispo.

Ainda: “Como pastores missionários da salvação gratuita de Deus, busquem também aqueles que não conhecem Jesus ou O recusaram. Não podemos prescindir dos irmãos que estão distantes. Vendo em nós o Senhor que os interpela, talvez tenham a coragem de responder ao seu convite divino. Se isso acontecer, as nossas comunidades serão enriquecidas e o nosso coração de pastor se alegrará. Este horizonte deve prevalecer em seu olhar de pastores no iminente Ano Jubilar da Misericórdia, que em breve iremos celebrar”.

Recentemente, dirigindo-se aos sacerdotes na Polônia, o Papa Francisco disse que: “Como não ouvir nela o eco do grande convite de São João Paulo II: «Abri as portas»? Mas, na nossa vida de sacerdotes e pessoas consagradas, pode haver muitas vezes a tentação de permanecer um pouco fechados, por medo ou comodidade, em nós mesmos e nos nossos setores. E, no entanto, a direção indicada por Jesus é de sentido único: sair de nós mesmos. Trata-se de realizar um êxodo do nosso eu, de perder a vida por Ele (cf. Mc 8, 35), seguindo o caminho do dom de si mesmo. Por outro lado, Jesus não gosta das estradas percorridas a metade, das portas entreabertas, das vidas com via dupla. Pede para se meter a estradas leves, para sair renunciando às próprias seguranças, firmes apenas n’Ele”.

Caro Dom Paulo, aqui em São Carlos Vossa Excelência terá a oportunidade de ser a voz dos que não têm voz, estar com os abandonados, com os que sofrem, dos que estão precisando da presença de Cristo e da Igreja. Vossa Excelência será a sua voz, a voz daqueles que não podem falar, ou que são obrigados ao silêncio, para ser consciência das consciências e convite à ação, para recuperar o tempo de sofrimentos e de esperanças não alcançadas. Que neste seu bonito caminho episcopal que se inicia hoje, desejo que o fogo do Evangelho lhe arda nas veias e lance o seu báculo pastoral a caminhar pelas estradas da Diocese de São Carlos, revelando a todos a alegria de haver conhecido e encontrado Jesus Cristo, de quem Vossa Excelência será a primeira testemunha e o apóstolo da misericórdia e da caridade.
Dom Paulo Cezar, o clero de São Carlos é numeroso e reconhecido pela sua pertença pastoral e pelo engajamento em favor dos mais humildes. Ame, acima de tudo, o seu amado clero, como pai generoso. Tenha o Seminário Diocesano como a pupila de seus olhos. Não se esqueça que, fiel ao que propomos em Aparecida, na Assembleia de abril passado, os leigos são protagonistas e construtores da ação evangelizadora. É sempre tempo de valorizar o protagonismo de todos os fiéis batizados.

O homem é o caminho da Igreja no encontro com Deus. Que a sua vida em São Carlos, sob a proteção de São Carlos Borromeu e de Nossa Senhora da Conceição, seja de construção de pontes, de vivo diálogo e de encontros que resplandeçam sempre o serviço generoso em favor de todo o povo santo de Deus.
Somos gratos a Dom Paulo por tudo o que realizou entre nós no Rio de Janeiro, e, de coração em festa, desejamos um profícuo ministério frente à Igreja particular de São Carlos, SP, que com alegria neste momento o entregamos na firme certeza de que nele brilhará a luz do Cristo Ressuscitado.

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